EDITORIAL

 

E nem bem termina Junho e já se avoluma a boa saudade desse mês, frio em algumas temperaturas, mas quentíssimo no afeto e no carinho colhido em tantos e tão diferentes lugares. Junho teve lindo início com os amigos inesquecíveis do excelente Petrópolis Aquarela, de São Bernardo do Campo e nessa mesma cidade, dias depois, o gostoso bate-papo com as educadoras geniais dos amigos do Materna. Nesse mesmo começo, sobrou emoção, ainda uma vez com a turma querida da minha (e nossa) editora I.B.E.P. levando-me de Campinas à Caieiras e de Caieiras à sempre linda Brasília.

 

Mas, se essas palestras criaram laços de amizade perene, tão fortes e cheia de emoção foi a acolhida e amizade inesquecível com educadores reunidos pela Secretaria de Educação de Montanha (ES), com a animadíssima turma do S. E. S. C. lá na fantástica cidade de Natal (RN), e com os velhos e novos queridos amigos da Futuro Eventos, desta vez “arrasando” com seu magnífico Congresso, nessa pérola preciosa da serra gaúcha, que está no fascínio  de Gramado.

 

Mas, peregrino da educação que por tantas terras andei, não poderia deixar junho chegar ao fim sem comentar a festa com que fui recebido e homenageado nessa cidade-devaneio de Santa Catarina que é Faxinal dos Guedes, em ação promovida pela turma do Energia  e sem brindar a minha terra, essa sofrida e amada São Paulo, onde palestrei aos professores  reunidos pela Sistema Universitário e, levado pela Editora Vozes, às Irmãs, Educandos e Educadoras  do Santa Lúcia Filippini.

 

É possível esquecer junho? Não falo a verdade se conto de uma sincera saudade? Essa gostosa saudade que começa agora.

 

Celso Antunes


O MEDO NA SALA DE AULA

 

 

Alunos desmotivados, infra-estrutura escolar precária e professores despreparados são apenas alguns dos ingredientes que nos alertam para a indisciplina escolar que, de um inicial desrespeito as regras regimentais tristemente evolui para situações de violência e de risco que faz com que muitos professores agreguem o medo aos desafios que enfrentam.

E os números confirmam com transparência esse quadro: quatro em cada dez das melhores escolas públicas de São Paulo registram casos de violência e a proporção cresce para seis em cada dez entre escolas com o desempenho mais fraco no Saresp. Além de dados regionais, pesquisas da International Stress Management e Unesco destacam que 46% dos professores brasileiros apontam a indisciplina em sala de aula como sua maior dificuldade pedagógica e cerca de 52% admitem que convivem diariamente com ironia e desrespeito, em escolas onde depredações, roubos e pichações constituem fatos da rotina. Colocar em dúvida a existência desse problema é impossível e, assim, o que de mais urgente se procura são algumas soluções.

O pequeno quadro abaixo as sintetiza. Na coluna da esquerda as essenciais características de escolas que apresentam problemas de indisciplina e violência e na coluna ao lado, os elementos que marcam as atividades pedagógicas em escolas onde o problema disciplinar é contornado sem conflito. Transfira os fundamentos desses estudos para sua escola e perceba com são nítidas as raízes do problema:

 

GRAVES PROBLEMAS DISCIPLINARES

PROBLEMAS DISCIPLINARES IRRELEVANTES

 

AUSÊNCIA DE INFRA-ESTRUTURA MÍNIMA – CLIMA EMOCIONAL PRODUTIVO.

 

 

ATIVIDADES PEDAGÓGICAS SIGNIFICATIVAS, MAS PRAZEROSAS

 

PROFESSORES DESPREPARADOS PARA USO DE RECURSOS E UTILIZAÇÃO DE NOVAS ESTRATÉGIAS DE ENSINO

 

 

 

PROFESSORES EXPERIENTES E DEVIDAMENTE QUALIFICADOS

 

CHOQUE DE GERAÇÕES E DE VALORES ENTRE ALUNOS E PROFESSORES

 

 

FORMAÇÃO SOCIOLÓGICA E ANTROPOLÓGICA DOS PROFESSORES PARA COMPREENDER AS NOVAS GERAÇÕES

 

 

ENVOLVIMENTO FAMILIAR INTEGRAL NO PROCESSO DE ENSINO, APRENDIZAGEM E RESPEITO

 

 

PAIS QUE EFETIVAMENTE APRENDEM E APLICAM UM PROGRAMA SIGNIFICATIVO.

 

QUANTIDADE DE ALUNOS POR SALA

 

 

SALAS DE AULA QUE DIFICULTAM O ISOLAMENTO CULTURAL DO ALUNO.

 

 

RELAÇÃO ALUNO X  FUNCIONÁRIOS ADMINISTRATIVOS E EDUCADORES

 

 

FUNCIONÁRIOS ADMINISTRATIVOS QUE SE FAÇAM EDUCADORES.

 

 

Na coluna à esquerda aparecem cinco razões apontadas nas pesquisas como causas mais comuns da violência escolar e na coluna da direita, soluções encontradas por escolas que viveram o problema disciplinar e o superaram pelo emprego das medidas propostas. Percebe-se, dessa forma, que os registros de violência são freqüentes e o medo aterroriza os professores principalmente quando inexiste na escola uma infra-estrutura material e de recursos favorável a um clima emocional produtivo, quando os professores se apresentam despreparados tanto do ponto de vista pedagógico, como sobretudo de uma visão sociológica e antropológica que atenua o choque de gerações e mais ainda quando a família não se envolve, as salas não se apresentam abarrotadas e existem funcionários administrativos em bom número e adequadamente preparados para compreender o mundo jovem e intervir com serenidade e com segurança.

 

Entre as razões apontadas, cabe destaque especial  e surpreende a relação entre elas com a preparação de professores e funcionários, não apenas para um trabalho realista, motivador e interessante, mas também para fazer da escola dos alunos, uma escola de pais, ensinando-os a verdadeiramente descobrir e conhecer seus filhos, seus amigos e os pais dos amigos de seus filhos. Caso existam investimentos – e não são muito onerosos – para essa melhor adequação familiar e docente, o problema da infra-estrutura escolar assume peso significativamente menor.

 

Ainda uma vez nessa breve análise de causas e soluções se retorna a tradicional fábula da assembléia dos ratos. Colocar um guizo no pescoço do gato é imprescindível ajuda, resta apenas definir quem assume esse imprescindível papel.

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Celso Antunes
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